quarta-feira, 2 de julho de 2014

Os milagres da Copa



Os jogos da Copa do Mundo não têm sido marcados apenas pelos gols e pelas belas jogadas dos craques do futebol, mas também pela difusão em escala planetária do famigerado jeitinho brasileiro. Isso se deu por ação dos falsos cadeirantes que, tão logo se acomodaram em seus assentos reservados, “recuperaram” o movimento das pernas e começaram a pular e vibrar efusivamente com o resto da torcida. O flagrante dessas curas extraordinárias, que já são chamadas de “milagres da copa”, foi filmado e postado imediatamente nas redes sociais. Os estrangeiros ficaram surpresos e revoltados, o que é compreensível, já que decerto não estão acostumados com a malandragem nacional. O que não compreendo é a indignação dos nacionais. Explico.

O brasileiro já devia estar acostumado com milagres dessa natureza. Os milagreiros destas terras tupiniquins se revelam muito cedo, já na tenra idade, quando, na escola, reúnem-se em grupos para fazerem trabalhos de aula. É comum observar apenas um colega se empenhando na realização da tarefa. Porém, inexplicavelmente aparece o nome de todos na capa do trabalho! Vai ver aqueles que aparentemente não fizeram nada, na verdade, transferiram seus conhecimentos através de algum processo telepático invisível para os seres humanos comuns. Um milagre, naturalmente! Na atualidade, com a modernização dos recursos tecnológicos, também os trabalhos individuais da escola ou da faculdade surgem prontos misteriosamente na tela do computador depois de alguns cliques no Google. É, sem dúvida, um milagre cibernético! Nas salas de cinemas e teatros não se vê cadeirantes recuperando os movimentos das pernas, mas é incrível como há pessoas pagando meia entrada como estudantes, mesmo não o sendo. Quando menos se espera, essas pessoas sacam de suas bolsas e carteiras uma identidade estudantil. Novamente, só podemos estar diante de um milagre! E o que se dirá daqueles que, apesar de estarem trabalhando, continuam recebendo o seguro desemprego, benefício destinado a amparar os desempregados? É preciso ter fé, muita fé, para fazer brotar esse benefício mensalmente na conta desses crentes. Aliás, certamente é essa fé que anima aqueles que, mesmo gozando de uma perfeita saúde, ficam anos a fio encostados no INSS.

Os exemplos poderiam ser multiplicados, mas bastam esses para demonstrar que os milagres no Brasil acontecem todos os dias aos milhares, quiçá milhões. É o jeitinho brasileiro elevado à condição divina! Aposto como cada um dos estimados leitores, assim como eu, conhece alguém bem próximo que já deu um jeitinho para resolver algum infortúnio ou levar vantagem. No entanto, ninguém fica surpreso, ninguém fica revoltado, ninguém faz protesto contra essas práticas. Ao contrário, o brasileiro até se orgulha dessa malandragem. Essa praga do “jeitinho” está tão arraigada na cultura nacional que cada brasileiro se sente um pouco autorizado a dar um “jeitinho” quando está em apuros. Só que o “jeitinho”, se bem pensado, nada mais é do abrir uma exceção a uma regra. E se todos dão um jeitinho, então, no final das contas, a regra vira exceção, e a exceção vira regra. E é essa permissividade que acaba por legitimar e estimular o descumprimento generalizado de regras elementares de convivência, resultando nessa esculhambação social, onde pessoas saudáveis têm liberdade para adquirirem ingressos destinados a cadeirantes.

Por isso, não adianta se revoltar contra uma atitude reprovável só quando isso repercute nas redes sociais. Para se construir uma sociedade verdadeiramente civilizada, é imperioso ser intolerantes com o “jeitinho” sempre e em qualquer circunstância. Não tem desculpa, não tem exceção. Ser intolerante, no caso, não significa pregar o malandro na cruz. Talvez só desprezá-lo em razão da sua atitude cretina já seria suficiente para, quem sabe, fazê-lo refletir e mudar o seu comportamento. E mais do que condenar o outro, é preciso que cada cidadão pare de dar jeitinho, interrompendo esse ciclo vicioso. Do contrário, estaremos condenados a testemunhar mais e mais milagres todos os dias.

Leandro Govinda

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Xingamentos e outras ofensas




No jogo de abertura da Copa do Mundo, a presidente Dilma Rousseff foi vaiada e xingada pela torcida brasileira. Quem assistiu à partida em casa, pode ouvir o coro da torcida mandando a presidente para aquele lugar, digamos, íntimo.  A presidente ficou incomodada porque o insulto que lhe foi dirigido “não pode ser sequer escutado pelas crianças e pelas famílias”. Muitos outros brasileiros se sentiram desconfortáveis com essa situação, porque era a imagem (e o som) do Brasil que estavam sendo transmitidos para bilhões de pessoas.

Ninguém dúvida que o palavreado utilizado pelos torcedores revela a sua pouca ou nenhuma educação. E não é de se estranhar, afinal o Brasil ostenta inúmeros títulos mundiais quando o assunto é má educação. No entanto, a falta de educação de algumas pessoas pode ser facilmente contornada, no caso, cobrindo-se os ouvidos.  Por isso, sinceramente, ouvir pessoas insultando outras é, dos males, o menor. Há ofensas muito piores do que xingamentos e que não podem ser evitadas simplesmente tapando as orelhas.

É ofensivo, por exemplo, gastar bilhões de reais na construção de estádios, enquanto milhares de escolas públicas não possuem sequer uma quadra de esporte no pátio (algumas nem pátio têm). É ofensivo erguer arenas monumentais que, depois da copa, servirão apenas para cultivar inço nos gramados. É ofensivo ver o governo mentir sistematicamente para fazer crer que as obras de infraestrutura e mobilidade urbana foram todas entregues, quando se sabe que mal e porcamente se concluiu apenas os estádios.

É ofensivo o governo oferecer a todos os jogadores de futebol campeões de 58, 62 e 70 (e seus descendentes) um prêmio de R$ 100.000,00 e uma aposentadoria no valor máximo da Previdência Social simplesmente porque ganharam aquelas copas, enquanto o brasileiro comum precisa trabalhar feito burro de carga até os 65 anos para receber um salário mínimo de aposentadoria (e nenhum prêmio...).

É ofensivo ver uma federação de futebol estrangeira reinar soberanamente no país acobertada por uma cláusula de irresponsabilidade geral. É ofensivo saber que essa mesma federação não vai pagar um mísero tostão de impostos e contribuições sobre o lucro bilionário que vai auferir com a copa, um dos eventos esportivos mais lucrativos do planeta, enquanto o povo brasileiro é achacado com uma carga tributária que lhe extorque quase 40% dos seus já parcos rendimentos.

Esses são só alguns dos insultos praticados diuturnamente contra os brasileiros. Mas essas ofensas não parecem incomodar a presidente, que, na qualidade de mandatária da nação, colaborou efusivamente para esse estado de coisas. Há um ditado que diz: “quem semeia ventos, colhe tempestade”. Os xingamentos que a presidente ouviu são apenas os frutos do que ela e seu antecessor plantaram quando, desconectados da realidade do país, resolveram aderir ao projeto da copa do mundo de modo tão irresponsável.

Leandro Govinda

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Que falta me faz um relho




Tive o desgosto de assistir recentemente na internet ao programa Altas Horas exibido em 18/05/2014, no qual se apresentou uma entrevista com cinco criminosos confessos: os famigerados pichadores (para quem quiser perder 10 minutos do seu tempo, segue o link abaixo). Coube ao vocalista do Jota Quest, Rogério Flausino, convidado desse mesmo programa, resumir muito bem a qualificação dessas pessoas: “uns idiotas”. Assistindo à entrevista, eu só conseguia lembrar do meu avô, um gaúcho de Bagé que não tolerava malcriação, repetindo uma frase que parecia um mantra: “que falta me faz um relho”.

Também lembrei de Schopenhauer, para quem a estupidez do ser humano não tem limites. E observando a atitude dos pichadores (que devem pensar que Schopenhauer é o nome de algum festival de chop) não se pode discordar do filósofo alemão. Eles pretendem se eternizar na memória das pessoas com a sua imundice. Que falta me faz um relho! De fato, quem consegue esquecer a sujeirada de um monumento histórico todo rabiscado com aquela tinta horrenda? Um dos pichadores parecia estar orgulhoso por ter sido reprovado e expulso da faculdade, uma vez que o seu trabalho de conclusão foi justamente pichar os prédios da instituição de ensino. Que falta me faz um relho! Como se vê, os pichadores tiveram oportunidades, chegaram até a cursar o ensino superior! Talvez o que lhes faltou foi inteligência para aproveitá-las. E talvez a revolta deles, no fundo, no fundo, decorra da consciência de que, exatamente por lhes faltar massa cinzenta, são seres absolutamente inúteis para a sociedade. Considerando-se o seu intelecto, chamar-lhes de idiotas é até um elogio.

Para os pichadores, o parâmetro de respeito é a transgressão. Se transgredir, eles respeitam. Que falta me faz um relho! Então, se um policial flagrar o pichador em ação e resolver transgredir os limites da lei aplicando-lhe uma longa surra de cassetete, presumo que o pichador não vai reclamar e vai até aplaudir a atitude do policial transgressor, um artista das cassetadas ao vivo e em cores! Os pichadores se autoproclamam artistas diferentes dos outros, libertários, transgressivos e revolucionários, que buscam o reconhecimento pela marginalidade. Que falta me faz um relho! Pois bem, é exatamente assim que a sociedade os vê: marginais. Aliás, é bom esclarecer que pichar é um crime ambiental previsto na Lei 9.605/1998 e punido com pena de prisão de 3 meses a 1 ano (art. 65). Ouvindo-os falando lamentei por ser uma pena tão leve para um crime tão cretino. O repúdio social a essa prática é tamanho que os pseudorevolucionários foram entrevistados em um estúdio, decerto para evitar o constrangimento das vaias do público ou quem sabe zelar pela integridade física dos entrevistados.

O que mais revolta, no entanto, é uma emissora de televisão de abrangência nacional veicular essa entrevista em um programa de auditório dirigido ao público adolescente e juvenil. Tratar esses marginais como estrelas, reservando-lhes um espaço nobre na mídia, é o atestado de que a programação da tevê brasileira assemelha-se ao lixo produzido pelos pichadores. Meu avô tinha razão: que falta me faz um relho...

Leandro Govinda

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Sobre saqueadores e bundas-moles



As pessoas, em geral, têm um ótimo conceito de si próprias. O povo brasileiro, enquanto povo, também tem um ótimo conceito de si próprio e tende a projetar no outro a razão de todas as mazelas que assolam o país. Por isso, 92% dos brasileiros acham que há racismo no país, mas só 1,3% se considera racista (dados preliminares de uma pesquisa realizada pelo instituto Data Popular). Alguma coisa está errada nessa conta ou o racismo, no Brasil, deve ser praticado por estrangeiros...

Outro exemplo da diferença gritante entre o mito e a realidade pode ser observado nos recentes episódios de saques a lojas e supermercados nos estados da Bahia e de Pernambuco. A certeza de que a polícia estava mesmo em greve incutiu em muitas pessoas a ideia de tirar proveito da situação para renovar toda a linha branca da casa, trocar a TV (Copa do Mundo está chegando e nada melhor do que ver os jogos em um telão!!!) e encher a despensa! As cenas são deprimentes: pessoas transportando caixas e eletrodomésticos nas costas, em carrinhos de construção, na garupa de motos, nos porta-malas dos carros e onde mais fosse possível.

Não adianta tentar encobrir a realidade e dizer que entre os saqueadores só havia bandidos, entendidos estes como pessoas dedicadas a atividades criminosas. Havia também pessoas comuns do povo que, ordinariamente, não se enquadram no rótulo de criminosos, mas que, diante da chance de obter uma vantagem indevida sem o risco de serem responsabilizados, não tiveram dúvidas em participar da onda de saques. Não há diferença entre o bandido comum e esse malandro de ocasião, afinal ou a pessoa é honesta ou não é. Se é “honesta” só porque a polícia está vigiando, então, na verdade, trata-se de um marginal enrustido. E bunda-mole, porque não age regularmente desse modo apenas porque tem medo de ser preso. Prova dessa covardia é que, dias depois, quando a polícia divulgou que utilizaria as imagens gravadas nas ruas para identificar os saqueadores, muitos resolveram abandonar a res furtiva nas ruas para não serem flagrados na posse do produto do crime.

No Brasil, há essa tendência de mascarar a realidade e ocultar uma verdade incômoda: a frouxidão moral do povo, traduzida no “jeitinho brasileiro”, que, ao fim e ao cabo, é a raiz dos males que acometem a sociedade. O brasileiro precisa parar de louvar uma retidão ética que não existe e assumir de uma vez por todas a sua responsabilidade pela esculhambação geral decorrente dessa malandragem cotidiana. Enquanto esse “jeitinho” for encarado como uma virtude e não um desvio de caráter, não há perspectiva de mudança.


Leandro Govinda

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A (in)justiça com as próprias mãos




Foi enterrada ontem a mulher que, no último sábado, foi espancada por populares no Guarujá, litoral de São Paulo, por ser suspeita de sequestrar crianças e praticar rituais de magia negra. Na páscoa, um casal de turistas, que havia pichado uma pedra em uma praia também no Guarujá, teve o corpo inteiro pichado por banhistas revoltados com a ação dos vândalos contra a natureza. Igualmente, larápios têm sido amarrados a postes para execração pública.

Parece que fazer justiça com as próprias mãos caiu no gosto do povo brasileiro. A justificativa para a ação dos populares teria origem na sensação de impunidade que permeia a sociedade decorrente da incapacidade de o Estado investigar, processar e punir os transgressores da lei. Esse fato é inegável. Todavia, a pretensão de cada um do povo assumir as funções do Estado não resolve o problema. E aqui não se está condenando aquele que, diante de uma agressão, reage imediatamente em legítima defesa. Essa defesa, como a expressão sugere, é legítima. O problema é quando qualquer pessoa resolve fazer as vezes de delegado, de promotor e de juiz ao mesmo tempo para aplicar a lei ao seu bel prazer e ao melhor estilo “olho por olho, dente por dente”.

Essa atitude selvagem de fazer justiça com as próprias mãos simboliza o retorno aos tempos bárbaros. E vejam até onde pode nos levar a lógica desses justiceiros. A mulher linchada no Guarujá era acusada de sequestrar crianças, um crime tipificado no código penal. Todos os que participaram do espancamento são, em tese, suspeitos da prática do crime de homicídio ou, no mínimo, lesão corporal seguida de morte, ambos crimes também tipificados no código penal. Logo, os familiares e amigos da vítima, convencidos da sua inocência, poderiam também fazer justiça com as próprias mãos submetendo os algozes ao castigo que melhor lhes aprouver. E, depois, aqueles que achassem esse castigo exagerado ou injusto, poderiam ficar indignados e revidar aplicando outro castigo nos novos suspeitos... Fácil perceber a bola de neve se formando. Pelo andar da carruagem, em breve quem estacionar em local proibido corre o risco de levar uns bons sopapos dos novos paladinos da justiça.

O mais triste de tudo é observar que muitos desses justiceiros devem ser aquele típico brasileiro que ostenta orgulhosamente a malandragem como uma virtude. O famigerado “jeitinho brasileiro” é apenas um eufemismo para uma flagrante transgressão da lei e da ordem. Se bem pensado, um pouco da ineficiência do Estado se deve justamente a esse estúpido hábito do brasileiro de simplesmente não respeitar regras elementares de convivência social, já que é praticamente impossível reprimir tantas violações cotidianas da lei. Não duvido que, se fosse aplicada a lei a ferro e fogo, haveria mais brasileiros presos do que soltos...

A impunidade incomoda a cidadão de bem. A ineficiência frustra a expectativa de quem clama por justiça. Ao invés de empregar a energia que emerge desse incômodo e dessa frustração para fazer justiça com as próprias mãos, cada potencial justiceiro deveria canalizar essa energia para uma reflexão individual, a fim de avaliar o quanto ele próprio, com seu jeitinho, contribui para esse estado de coisas e o quanto ele pode efetivamente colaborar com Estado para a construção de uma sociedade mais ordeira e harmônica.

Leandro Govinda

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O desforço necessário do Rio Vermelho



Os integrantes da ocupação Amarildo sofreram um revés no último dia 21 de abril. Recusando a oferta do INCRA de assentá-los em uma área em Canoinhas, no planalto norte catarinense (decerto porque é muito longe da praia), alguns integrantes do movimento, muito apegados à brisa do mar, resolveram tentar invadir outra área na comunidade do Rio Vermelho. Para surpresa deles (e de muita gente), as pessoas dessa comunidade resolveram dar um basta nesse abuso e colocar ordem na casa.

Ao contrário do que foi noticiado pela imprensa, ninguém ali fez justiça com as próprias mãos. O exercício arbitrário das próprias razões é um crime tipificado no art. 345 do Código Penal nos seguintes termos: fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite. Chamo a atenção para a parte final desse dispositivo, porque, no caso de proteção da posse, a lei permite que o possuidor turbado, ou esbulhado, defenda a sua posse por sua própria força, desde que o faça imediatamente, ou seja, tão logo seja turbado ou esbulhado (para quem sabe ler, consulte o art. 1.210, § 1º do Código Civil). É o que se chama desforço imediato, uma espécie de legítima defesa da posse. É isso mesmo: diante de uma invasão iminente, o possuidor de um terreno pode agir, com amparo na lei e independentemente da qualquer intervenção do Estado, para proteger a sua posse, repelindo a agressão injusta, inclusive com o emprego da força física, só não podendo praticar atos além dos estritamente necessários para se manter na posse.

O proprietário do terreno às margens da SC-401, quando percebeu a invasão do seu terreno, preferiu recorreu ao Poder Judiciário. Deu no que deu: ao invés de uma imediata ordem de reintegração de posse, ganhou um atestado de paciência, sendo obrigado a “negociar” o seu direito de propriedade. A comunidade do Rio Vermelho, sabedora do tratamento conferido pelo próprio Estado aos invasores, tratou logo de defender o patrimônio da comunidade, invertendo a busca pela proteção estatal e forçando os invasores a reclamarem proteção policial. Sim, porque, para sair do terreno, os invasores ainda exigiram escolta policial.

Vejam só a que ponto chegamos: pessoas que, em sua maioria, jamais estudaram Direito e que não detém qualquer parcela do poder do Estado foram justamente aquelas mais empenhadas em preservar o império da lei e restaurar a ordem. Por conta disso, agora são acusadas de fazer justiça com as próprias mãos. Enquanto isso, os invasores, ou seja, justamente aqueles que atentaram contra a lei e a ordem são protegidos pela polícia. O quadro seria cômico, se não fosse trágico. Nesse contexto, nunca antes na história desse país a canção cantada por Raul Seixas foi tão atual: “tá tudo errado... pare o mundo que eu quero descer”.

Leandro Govinda

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Alienação mental universitária


Os atos de resistência à recente ação policial no interior do campus da Universidade Federal de Santa Catarina demonstram a alienação mental de parte dessa comunidade universitária.

Tudo começou com uma ação rotineira da polícia federal que, a pedido da própria Reitora da universidade, visava combater o tráfico de drogas no campus. No curso da ação, policiais identificaram pessoas que estariam na posse de drogas para consumo pessoal. Ao ver essas pessoas serem conduzidas até a Delegacia para lavratura do termo circunstanciado (procedimento esse determinado por lei – para quem sabe ler, confira o art. 48, §2º, da Lei 11.343/2006), alguns estudantes reagiram e tentaram impedir a ação policial, que consideraram desarrazoada e violenta, chegando ao cúmulo de depredar e virar uma viatura e outro carro da segurança da universidade. Essa reação desmiolada e inconsequente pode caracterizar, em tese, os crimes de resistência, desacato, desobediência e dano duplamente qualificado, todos tipificados no Código Penal e com penas que variam de 6 meses até 3 anos de prisão. Depois da confusão, esses mesmos estudantes invadiram a Reitoria (que, de tão costumeiramente invadida, já virou a casa da mãe Joana), fumaram os seus cigarrinhos e ainda tiveram disposição para substituir a bandeira nacional, hasteada no mastro da praça central do campus, por uma bandeira vermelha, uma verdadeira afronta a um dos símbolos da República.

Desde tempo imemoriais alimenta-se no imaginário coletivo o mito de que a autonomia universitária garante uma imunidade quase diplomática para quaisquer ações, inclusive criminosas, perpetradas no interior da universidade. O terreno da UFSC é considerado um “território federal”, como se “federal” não significasse pertencente à União, mas sim a algum ente estrangeiro ou, quem sabe, extraterrestre ou divino. Daí porque algumas divindades que lá ensinam e estudam consideram um absurdo a polícia federal, um órgão da União, “invadir” o intangível campus sem pedir autorização para o seu líder-mor, o Magnífico Reitor.

Realmente, essa parcela da comunidade acadêmica só pode mesmo ser alienada, porque parece viver no mundo da lua. Como bem ressaltou o delegado federal responsável pela operação, Paulo César Cassiano Júnior, autonomia universitária não é licença para baderna. A autonomia universitária garantida pela Constituição Federal significa apenas e tão somente liberdade para pensar e produzir ideias, administrar os recursos e gerir o patrimônio, que, vale lembrar, é público, porque mantido e custeado pelo dinheiro dos impostos pagos por toda a sociedade brasileira. As universidades não são entes soberanos alheios à Constituição e às leis do país, de modo que essa autonomia não é um passe livre para se fazer o que quiser dentro do campus. E esses estudantes, que são alienados, mas não são burros, conhecem muito bem as suas responsabilidades, por isso trataram logo de arrancar da Reitora o compromisso de que não fosse instaurado nenhum tipo de processo administrativo ou criminal contra os envolvidos na ação policial e na ocupação do prédio da Reitoria, como se o Reitor fosse investido de poderes próprios das autoridades policiais, judiciárias e do Ministério Público e pudesse dar a eles um salvo-conduto (documento disponível na página do “movimento” Levante do Bosque no Facebook).

A permissividade e a complacência com a irresponsabilidade no seio da universidade não chega a surpreender, já que a frouxidão moral que acomete a sociedade brasileira estimula esse tipo de mansidão bovina. O que chama a atenção é a indiferença dessa estudantada em relação às ações da polícia de combate ao tráfico de drogas, quando realizadas nas periferias, o que acontece diuturnamente. Talvez porque a periferia seja muito distante do campus e aí bate uma preguiça danada para se deslocar até lá para fazer manifestação. Nada de “Levante da Favela”. Nem uma mísera bandeirinha vermelha é erguida em protesto. Às favas qualquer solidariedade, só sobra o ensurdecedor silêncio da alienação mental daqueles que ou ignoram a realidade da sociedade na qual vivem ou só estão mesmo preocupados com os próprios umbigos.

Leandro Govinda